Publicação: 01/10/2021
Pesquisadores debatem os efeitos do maior desastre ambiental da costa brasileira

No final de agosto de 2019 ocorreu no Brasil o desastre ambiental de maior extensão já registrado no país. Ao longo de várias semanas, grandes volumes de óleo de origem desconhecida cobriram as praias do litoral brasileiro, afetando toda a vida marinha e as atividades econômicas nessas áreas. A mancha se estendeu do litoral do Maranhão até os arredores do Rio de Janeiro, embora 99,8% dela tenha se concentrado nas praias do litoral do Nordeste. 

Passados dois anos da tragédia, um grupo de pesquisadores do Grupo de Apoio à Mobilização – Nordeste (GAM – NE) reuniu-se virtualmente para um debate sobre os seus impactos e seus efeitos,  que perduram até hoje. A discussão online reuniu os pesquisadores Mariana de Oliveira Estevo, mestre em Diversidade Biológica e Conservação nos Trópicos pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), André Henrique de Oliveira, professor do Departamento de Química Analítica e Físico-Química da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Patricia Eichler Barker, bióloga, pesquisadora em oceanografia biológica e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Mary Nogueira, geóloga pela UFC e atualmente professora da UFOP e representante do Ceará no GAM – NE, moderou o debate.

Eles expuseram estudos feitos em seus estados após a chegada do óleo às regiões litorâneas e como isso impactou a vida das comunidades que dependiam de atividades econômicas ligadas ao oceano, além dos efeitos na vida marinha. Vale destacar que em algumas situações os estudos mostraram que o desastre colocou em risco a segurança alimentar e as condições de saúde de muitas comunidades, com registros de surtos de doenças provocadas tanto pelo contato com o óleo quanto pela perda de proteínas na rotina alimentar dos moradores.

Mariana de Oliveira, da UFAL, analisou o tempo de resposta e as ações das autoridades que prestaram auxílio a essas comunidades, já vulneráveis antes mesmo do desastre. Além disso, ela mostrou o quanto é necessário que os governos apresentem, ainda hoje, ações coordenadas para seguir mitigando os efeitos do desastre, pois o prejuízo às comunidades persiste até o momento. De fato, as manchas de óleo até hoje seguem alcançando o litoral de Alagoas, em menor escala que em 2019. A questão está distante de estar completamente solucionada.

O professor André Henrique de Oliveira, da UFC, por sua vez, apresentou estudos realizados tanto na época do desastre quanto no presente, comparando as condições geológicas dos terrenos afetados. A pesquisa indicou que até hoje amostras de óleo ainda atingem as praias cearenses e o quanto o solo dessas regiões permanece contaminado por elementos químicos oriundos do óleo. Como consequência, a contaminação  está afetando tanto as comunidades locais quanto a vida marinha dessas regiões.

Já a pesquisadora Patricia Eichler, da UFRN, trouxe um outro ponto de vista, desta vez focado na análise dos efeitos do óleo em microrganismos presentes nas águas e solos das regiões afetadas. Os resultados apontam a presença até o dia de hoje de resíduos químicos provenientes do óleo, invisíveis a olho nu, e que estão afetando a vida marinha dos locais atingidos, inclusive com o desaparecimento de espécies, muitas delas simbióticas. Houve uma clara transformação dos habitats marinhos nos locais analisados por Patricia e seu grupo de pesquisadores na costa do Rio Grande do Norte.

Após as apresentações, os pesquisadores iniciaram um debate sobre a situação atual de cada uma das localidades e as perspectivas futuras para atenuar o problema. A gravação da live está no canal do GAM-NE no YouTube e pode ser assistida aqui: https://www.youtube.com/watch?v=_StZoMxwEDY

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